Dos cumprimentos (inclui ensaio sobre o réveillon)
Razão tem quem diz logo “tudo de bom”. Isto porque, quem não tem coragem de o dizer é obrigado a cumprimentar permanentemente as pessoas com “bom dia” de manhã, “boa tarde” à tarde, “boa noite” à noite e “bom ano” no 31 de Dezembro, entre muitos outros “bons”.
Daqui resulta que quem consegue dizer “tudo de bom” arruma logo com o universo de cumprimentos, seja manhã, tarde ou noite, fim de ano ou Carnaval.
É incrível este trabalho de eficiência social e cultural, que poderá ter influência no aquecimento global, é só esperar que tal estudo ocupe as páginas da imprensa mundial – passe a rima, porque isto de falar em rima também é típico de quem diz “tudo de bom”. E devagarinho vamos entrando no espírito e adoptando uma postura mais fofa, onde rimamos, desejamos tudo de bom e mandamos muitos beijinhos.
Bom, mas a passagem de ano é um fenómeno de calendário menos frequente e por isso merece um tratamento especial. O resumo de tudo a um só cumprimento geral e abstracto funciona melhor no quotidiano, apesar da evidente sobrevalorização da passagem de ano.
Quem é que inventou isto dos anos, dos dias e das horas? Um tarado pela arrumação, está claro. Um tecnocrata. Um indivíduo monótono e rotineiro. Alguém sem a mínima noção de tempo.
Prefiro, por isso, entender a passagem de ano como o único dia em que se pode ir às compras e gastar mais dinheiro em bebida do que em peixe. Olhar de esguelha a dourada, por causa do seu quilo a quase um conto de réis, com o carrinho cheio de champanhe e vinho, é luxo a que só nos podemos dar quando estamos perante um acontecimento universal que não tenha origem terrorista. É evidente que não podemos correr ao champanhe e ao vinho quando dois aviões de passageiros embateram numas torres no coração da América. A não ser que estejamos nos andares mais altos.
Bom ano.