Na, na ,na ,na, na, não queremos cá ricos, xô
Se o Estado quer ter mais dinheiro dentro de fronteiras, aumentar a receita fiscal com mais matéria tributável ou convencer alguns capitais a regressarem ao seu país de origem para uma idade de ouro, então o caminho não é definitivamente perseguir as fortunas, porque as fortunas não são crimes. Podem ser, mas aí o problema também não é fiscal.
Com efeito, sempre que oiço falar neste combate à evasão feito a partir de sinais exteriores de riqueza, dos carrinhos, dos barquinhos ou dos jactinhos, parece que sinto os advogados a tirarem os pés da mesa e, pouco depois, oiço dinheiro a voar.
Muitas vezes – e chamo a vossa atenção para a parte mais curiosa do tema – são os próprios mentores políticos dos grandes esquemas de combate à evasão fiscal que, um dia mais tarde, vão dar asas ao dinheiro dos seus clientes.
Por cá ficam os rendimentos mais baixos, algumas riquezas sofríveis e uma ou outra fortuna maluca que só não vai para a praia porque os seus titulares nunca saíram da cama para fazer as contas.
Bom, mas a verdade é que não é possível um governante dizer que vai deixar de penalizar os mais ricos, porque os pobres e os remediados ficam doentes. Não sonham, os pobres e os remediados, que se o barco daquele milionário tivesse sido comprado em Portugal em vez de se abrigar naquele paraíso longínquo, o Estado podia encaixar meio milhão em impostos.
Não. Os pobres e os remediados querem que o Estado lhes saque quatro ou cinco milhões, julgando que com isso lhes estragam as férias. Mas o barco lá está na doca e para o Estado português, se tudo correu bem, nem um cêntimo foi.
Não há problema, porque os pobres e os remediados trabalharão todos os dias, de manhã à noite e sempre de cabeça erguida, para suprir qualquer coisinha que podia ter entrado e não entrou.
Quando se fala em barcos podia falar-se em dinheiro, dinheirinho, que podia estar aqui mas está muito longe daqui. E cada dia que passa vai sendo pior porque os portugueses estão conjunturalmente deprimidos e porque assomam mercados muito mais interessantes para as fortunas.
Voam pessoas e dinheiro todos os dias! E nós, em vez de tornarmos este belo país mais agradável para se estar, para se criar e gerir riqueza, preferimos regressar à lengalenga da evasão fiscal e da fortuna e do barquinho.
Ademais, para dizer que estamos a falhar, o que é ainda mais divertido. Afugentamos a riqueza, ganhamos má fama e não aparamos nenhum golpe. Será que não há por aí nenhum benfeitor rico disponível para erguer uma estátua a… nós?
Podia ficar ali no Terreiro do Paço, em frente ao Ministério das Finanças. Ficava bonito um bobo no alto e uma inscrição: «Aos contribuintes portugueses que salvaram a pátria de ter cá ricos. (Estátua oferecida pelo Senhor Manuel Afortunado, que desta forma baixou 1% no IRC de uma pequena empresa que só mantém em Portugal para dar emprego a um primo afastado.)»



