Crise na última casa de chá da uptown lisboeta

Lisboa tem poucas pastelarias com história, qualidade e maneiras. A Pastelaria Versailles, na Avenida da República, ainda vai sendo uma delas, só não sei até quando.
Conheço-a razoavelmente bem porque foi lá que, durante algum tempo, tomei o meu pequeno-almoço, todos os dias. Estamos a falar de uma altura em que eu tomava o pequeno-almoço porque o meu pai tinha a gentileza de me levar à escola e parava lá. Se não for assim, obrigado, o meu pequeno-almoço consiste basicamente em furtar iogurtes aleatoriamente de frigoríficos, calhando por vezes sabores que nem tolero.
Bom, mas nunca deixei de visitar a Versailles. Há pouco tempo estive lá e depois de contornar o meliante que se apoderou das portas vaivém, dei de caras com um suporte de guardanapos da Vigor. Bastava um relógio da Sumol ou uma arca frigorífica da Menorquina e estava assassinada a pastelaria.
Nem relógio nem arca, por enquanto, mas uma reportagem da TVI, transmitida ontem, acaba por ter o mesmo efeito. A notícia era sobre a crise nas pastelarias e a necessidade de aumentar o preço do café, cobrar copos de água ou cortar nos paus de canela.
Então não é que o responsável da Versailles falou? E não é que confirmou a crise e a possibilidade de vir a tomar estas medidas?
Aumentar os preços ainda se compreende, mas agora… falar à televisão sobre a velha crise? Cobrar copos de água? Cortar nos paus de canela? Que discurso mais deslocado.
Por favor, salvem a Versailles do pastelaricídio iminente.