Berlengas - Ilhas Sós (reloaded)

 

Uma visita ao arquipélago das Berlengas começa sempre como termina: com uma viagem de barco. A ligação de Peniche às ilhas é, por isso, parte importante da jornada.

 

No porto de Peniche há três ou quatro operadores turísticos que oferecem programas completos ou apenas a travessia. É preciso por isso fazer uma boa escolha e não entrar no primeiro barco, pronto a sair e com o melhor preço.

 

A minha expedição, neste aspecto, não correu bem. Fiz-me ao Atlântico num barco lento, esguio e alto, que me fez chorar durante uma hora por um casco mais corpulento e um motor vinte vezes mais potente. Aliás, no conjunto das duas viagens fomos ultrapassados por todos os barcos que ligam Peniche às Berlengas; e ao dobrarmos o cabo Carvoeiro comecei a contar as pessoas - a sobrelotação era evidente - e a dividi-las por balsas. Estava preparado para gritar, a qualquer momento, «as senhoras seguem já nesta, que tem uma boa reserva de atum, os cavalheiros vão naquela que expirou em 2005».

 

 

Entretanto, achei piada ao mestre - cujo desaparecimento fará, mais dia menos dia, notícia - quando disse para três jovens estrangeiros: «nunca se vira as costas ao mar». É verdade que não se vira, sobretudo numa embarcação daquelas.

 

 

Adiante, quando a costa se afasta e com ela uma paisagem lindíssima só interrompida por enormidades arquitectónicas datadas do nosso século, fixamo-nos então na Berlenga Grande, que se vai aproximando lentamente, feliz por nos ver a caminho. Somos queridos lá, naquele pedaço de terra que em tempos imemoriais se largou do continente.

 

À chegada, detemo-nos imediatamente nas gigantes falésias, nas grutas, na praia do porto e no pequeno bairro de pescadores. Não estivesse lá em cima um farol e para lá das grutas o forte, estava a ilha inteira naquele porto.

 

Começa então a exploração, naturalmente na esplanada do único restaurante, que é também o filão perfeito, pronto para receber os esfomeados vindos do mar com uma longa caminhada pela frente. A oferta é banal e os preços reflectem o monopólio, mas numa ilha não nos podemos queixar. Este é, de resto, um restaurante de passagem e nesse papel está bem.

 

Seguimos depois em direcção ao farol. A caminho encontramos a enseada que abre o horizonte aos Farilhões, um conjunto de ilhas a noroeste. Neste ponto temos uma vista soberba, até sobre a costa continental se o tempo der azo.

 

O farol, esse, estava fechado a sete chaves, como de costume. Qualquer país aproveitava o património riquíssimo que Portugal tem em faróis, mas por cá temos medo que as pessoas roubem as lâmpadas.

 

A meio caminho que estamos da visita completa, temos de falar nas gaivotas. Nunca tinha visto tantas. Ocorreu-me logo que se aquelas gaivotas tivessem um acesso de inteligência e se virassem aos humanos, era o fim da civilização naquele território. E não pensem que ando a ver muito Hitchcock, porque o meu receio tem fundamento, tanto que elas nem se mexem quando passamos. O primeiro que se lembre de atacar ali uma gaivota, ou é resgatado por helicóptero ou regressa a Peniche na horizontal.

 

 

Continuamos em direcção ao Forte de São João Baptista e é nesta fase que lamentamos a nossa condição física. Se soubesse o que sei hoje, só lá ia de barco, através das grutas que estão justamente entre a praia do porto e o cais do forte.

 

Um sufoco! O caminho a pé para o forte é muito difícil. Quando começamos a descer as escadas recortadas numa escarpa a pique, só conseguimos pensar no regresso, feito pelo mesmo sítio mas inevitavelmente a subir. Parei várias vezes. Sentei-me. Bebi água. Fiz mais um lanço. Sentei-me novamente.

 

Talvez seja a beleza exterior desta fortaleza armada, erguida no século XVII, o único motivo para continuarmos a buscar força onde julgávamos não existir. Mas quando lá chegamos, percebemos que talvez fosse melhor continuarmos a vê-la ao longe, porque depois de resistir aos mais violentos assaltos de piratas e corsários, o Forte de São João Baptista acabou por ceder ao homem moderno e já tem uma parietal antena parabólica. Uma beleza que combina muito bem com o lixo acumulado e com uma latrina que não estava nos planos de D. João IV.

 

Hoje, o forte também funciona como albergue de turistas aventureiros e nos corredores é feito o pedido para não se incomodar os hóspedes. Porém, quando vemos o lixo que os aventureiros largam nos corredores, ficamos com vontade de chamar a Banda do Samouco para tocar um pasodoble.

 

 

Mas enfim, é tempo de nos arrastarmos de volta até ao porto. Isto significa subir a escarpa que nos ia matando alguns minutos antes. Não consigo descrever aqui o que sentimos a meio da escalada, quando já não interessa descer, mas também não queremos continuar a subir; e parar é ficar à mercê da vida selvagem que por lá habita.

 

No caminho reencontramos todos os pontos de interesse que já tínhamos visto, mas usamo-los agora para contagem decrescente até à esplanada. «Está aqui o Farol, portanto já só falta a enseada e o bairro dos pescadores.»

 

Por falar em bairro dos pescadores, provavelmente o bairro mais pequeno do mundo, é interessante parar um bocado para ver como lá se vive. As pessoas estão quase sempre na rua a observar o movimento do porto, que não é o Terminal XXI de Sines mas ainda tem alguma azáfama, com barcos turísticos a chegar e a partir, trazendo e levando visitantes àquele património da solidão.

 

Resta dizer - e é justo depois de lamentar as provas de montanhismo - que as Berlengas oferecem aos seus visitantes um spa natural, com grutas e praias únicas, banhadas por água lúcida que cria um cenário de aquário autêntico.

 

Merece bem a visita, este raro refúgio no Atlântico, depositário de natureza pura.

 

[Reedição de Berlengas - Ilhas Sós, publicado em Agosto de 2008.]

Fotografias das Berlengas em vídeo:
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