Belisquem-nos, por favor
Se fosse muito rico – sou apenas bastante rico, mas não digam às Finanças, pois declaro dez mil euros anuais – contratava uma pessoa só para me beliscar. Bom, se fosse mesmo muito rico, largava ferro para Portofino. Mas admitindo que passava grandes temporadas em Portugal, precisava de alguém para me beliscar, porque este país, contado, ninguém acredita.
Hoje dei com declarações de José Maria Martins, que afirma: «Ferro Rodrigues e Jaime Gama também deveriam estar aqui, já que os jovens que acusaram Carlos Cruz também os acusaram».
Jaime Gama é apenas a segunda figura do Estado. Às vezes podia ser alguém importante, mas não, é apenas a segunda figura na hierarquia do Estado. Belisquem-me, por favor.
Ou o advogado de Bibi tem razão e é gravíssimo ou o advogado de Bibi não tem razão e é gravíssimo. Mas na mesma é que não se pode ficar depois disto. Belisquem-me por favor.
Com efeito, uma pessoa não pode dizer que o presidente da Assembleia da República devia ser julgado por pedofilia e depois ir comer um bife à Trindade. Ou então pode, mas nesse caso quem não pode ir comer o bife à Trindade é o presidente da Assembleia da República.
Adiante, leio também, no site de Carlos Cruz, o seguinte: «No entanto, esta testemunha apenas refere um sinal. Sinal esse, aliás, dotado de invulgar mobilidade, pois transitou do pénis do então arguido Paulo Pedroso para o meu.» Belisquem-me, por favor.
A única boa notícia chega-nos da Rainha de Inglaterra que já disse que o Ministério Público precisa de analisar o acórdão ao pormenor para saber se recorre. Que bom, parece que eles são muito rigorosos. Parece que vão analisar ao pormenor. Belisquem-me, por favor. Ao pormenor, quando falamos de um acórdão com quatro mil páginas e oito anos de processo, significa até sempre.
É verdadeiramente incrível. Como pode um processo desta gravidade demorar tanto tempo e acabar com mais acusações e dúvidas do que quando começou? Como é que é possível? Tantos dias, tantos papéis, tantos meios, tantas audições, tantos euros, tantos magistrados a tempo inteiro, funcionários judiciais, polícias, tribunais… tanto tempo e trabalho depois… o mínimo que se pedia era um caso encerrado, em vez de uma Pandora aberta.
Belisquem-me por favor.