Só um sôtor

«Sôtores, eu pedia que, por cada sujeito processual, só um sôtor…» – Juíza Ana Peres, na casa de Elvas, a tentar organizar a visita.


A história é simples. De repente, os sôtores começaram a subir a escada e às tantas já nem se sabia onde estava a vítima. A Juíza, percebendo que o rapaz estava a ficar baralhado – a tal ponto que denunciou uma sala no meio das escadas, coisa que nem ao engenheiro Sócrates alguma vez ocorreu – solicitou aos sôtores que ficassem no rés-do-chão, limitando o primeiro piso a um sôtor por sujeito processual.


São tantos os sujeitos processuais no caso Casa Pia que um sôtor por sujeito processual, mesmo assim, é mais gente que a concentração de Faro.


O corredor continuava, portanto, cheio de sôtores. Foi então que a Juíza teve uma ideia e pediu aos sôtores para se afastarem, o que teve graça, porque eles moveram-se dois milímetros para a direita e aparentemente foi suficiente.


Devo dizer, antes de mais, que estou aqui a comentar a visita dos sôtores à casa de Elvas porque o vídeo está no site do senhor televisão. Não sei se por causa disso o senhor televisão está feito outra vez ao bife, mas a verdade é que estas imagens não provam necessariamente a inocência do senhor televisão, mas sim a enorme inocência da Justiça portuguesa.


Então uma Juíza vai com uma vítima fazer o reconhecimento do local onde foram praticados abusos sexuais e leva uma autêntica Love Parade de sôtores? Isto é tão incrível que a primeira coisa que um dos jovens viu, quando entrou naquela casa, foi uma jarra e o sôtor Sá Fernandes. Como é que depois disto se pode identificar o que quer que seja?


Eu percebo que os sôtores tenham o direito de acompanhar as diligências, mas podia ser pela rádio. Como é evidente, acaba por ser intimidador, mas sobretudo estúpido, quarenta pessoas num corredor para quatro e para usarem de cada vez. Nem há oxigénio para todos. Mais cinco minutos de diligência e o Tribunal saía na horizontal.


Já sobre a intimidação, um exemplo: Se eu pedir ao leitor para me indicar onde está a máquina do café no seu local de trabalho, a resposta será pronta. Agora diga-me onde está a máquina do café à frente destes sôtores, nomeadamente à frente do sôtor Sá Fernandes e desta jarra. Vá, onde está a máquina do café? Aqui? Ou ali? Hã! A máquina do café? Rápido!


Pois é, talvez os sôtores atrapalhem um bocado. Mas não é minha intenção defender alguém. Não sei nem quero saber se aqueles jovens estiveram algum dia em Elvas. O que procuro é uma Justiça digna e não só digna para o relacionamento entre os sôtores, que chegam ao ridículo de se tratarem por sôtores mesmo quando a pessoa é indefinida.


A conclusão disto tudo? Deram-se como provados abusos contra um jovem que afirmou ao Tribunal que havia uma sala no meio das escadas. Essa prova está no site de um dos condenados. É um vídeo que mostra mais sôtores que casa de Elvas, mas enfim… não podia existir uma sala no meio das escadas e parece que o Tribunal também provou que não houve obras. Acórdão? Ainda não há e duvido que esclareça isto.


Pronto, é a Justiça que temos. Não é má, mas talvez tenha sôtores a mais.

ZP às 02:46 | link do post | comentar | partilhar