E devemos ajudá-los a vestir o pijama?

Agora chama-se cosleeping ao fenómeno milenar de os pais dormirem com os filhos. Isto acontece porque agora há nomes para tudo, porque há especialistas para isso. Por exemplo, o facto de eu estar a escrever sobre cosleeping deve chamar-se aboutcosleeping e haverá com certeza alguém especialista que diz que isto provoca tendinite. A verdade é que eu praticamente não tenho sensibilidade no dedão da mão esquerda, mas isso não será apenas por causa deste exercício de aboutcosleeping, mas por escrever mais de cinquenta mil caracteres por dia, num computador cuja ergonomia já me fez pior à postura que as noites que passo no sofá.


Mas sobre o cosleeping, que foi o que nos trouxe aqui, quero partilhar a minha tese. Em geral, é bom que as crianças se habituem a dormir na cama delas. Fica cada macaco no seu galho. Há mais espaço para todos.


No entanto, há crianças que não se habituam tão facilmente e que, por alguma razão, querem muito dormir com os pais durante uma fase. Contrariar isto, na minha opinião, é de loucos e não é bom para ninguém. Começa tudo a berrar e a probabilidade de um casamento ir pelo cano é enorme. Constatando-se o divórcio, o mais engraçado depois é que a criança, provavelmente, vai passar a dormir com o pai e com a mãe, mas agora em casas separadas.


Como se sabe, as guerras para uma criança dormir na sua cama acabam quase sempre com a criança a dormir na sua cama – o que acontece não por educação, mas por exaustão – e com os pais no ringue.


Melhor que isto só quando no dia seguinte também querem que a criança coma a sopa toda, mesmo quando a criança não tem fome. Isso então é aquilo a que os especialistas chamam a puta da confusão ou confusionbitch. Lá vai tudo pelos ares outra vez e ninguém arreda pé dali enquanto o pequeno ser humano não enfardar aquilo que vem no livro. Vinte minutos depois já não há sopa no pratinho pois encontra-se toda na trombinha dos austeros papás. Mas comeu ou não comeu? Não comeu, mas o pratinho ficou limpinho, como diz no livrinho.


Naturalmente que não se pode fazer, sempre, a vontade às crianças. Mas vai uma grande distância entre fazer sempre a vontade a uma criança e submetê-la às mais diversas torturas que as regras da educação moderna e funcional podem conferir. Já intuir sobre se cada cedência ou imposição vai, mais tarde, tornar a criança segura ou insegura é inútil. E estar a tentar moldar a personalidade de uma pessoa através da aplicação doseada dos sacrifícios e das concessões é um desempenho praticamente nazi. Ou soviético, consoante a preferência.


Mas pronto. Lá chegará o dia em que os pais são convidados a deixar os seus filhos recém-nascidos sem fralda a dois metros de um penico. Quatro ou cinco gerações depois, os bebés já vão sozinhos à casa de banho. E claro que serão pessoas muito mais seguras que todas aquelas que fizeram o cocó na fralda.

ZP às 18:51 | link do post | comentar | partilhar