A inversão do ónus da austeridade

Num relatório agora publicado, o Fundo Monetário Internacional defende que os países devem começar a pensar no crescimento e a estabilizar a austeridade - the most immediate policy challenge is to restore confidence and put an end to the crisis in the euro area by supporting growth, while sustaining fiscal adjustment.


Começa por ser muito irónico ver o Fundo Monetário Internacional a defender esta estratégia. Em teoria, o FMI é a organização que pede austeridade quando os países querem ajuda. Aqui está a dar-se um caso muito interessante, que é o FMI a pedir ajuda quando alguns países querem austeridade.


No documento, o FMI não se refere directamente a Portugal. Não se refere directamente a nenhum país. Mas nós sabemos qual tem sido a estratégia do Governo português: Quanto mais austeridade melhor, porque isso é que nos devolve a credibilidade, isso é que salva o país da bancarrota. Não temos, porém, um único sinal de nos estarmos a desviar desse caminho da bancarrota. Aliás, a credibilidade do país voltou a cair numa altura em que a austeridade já segue em velocidade de cruzeiro e mesmo depois de o Governo admitir ainda mais austeridade, caso fosse necessário.


Por que não temos, então, um único sinal de inversão da rota? Um único, por mais pequeno que seja.


Talvez porque o FMI tem razão e antes dele todos os políticos e economistas que se bateram contra o excesso de austeridade no combate à crise das dívidas soberanas. O imprescindível saneamento das contas públicas não pode ser feito à custa economia, porque um país sem uma economia activa ainda é mais assustador que um país com uma grande dívida ou mesmo com as contas públicas descontroladas.


Em Portugal, houve também quem contrariasse a ideia de que se salvava a Europa por via da austeridade. No plano político, o Partido Socialista combateu esta política, numa estratégia que foi entendida como expediente para safar o Governo das eventuais responsabilidades pela crise, mesmo numa altura em que já era clara a dimensão europeia da mesma.


A verdade é que a austeridade sem reservas e a ausência de políticas de crescimento económico não são solução. Já não é o Partido Socialista, dois ou três políticos e quatro ou cinco economistas que o dizem, é o próprio FMI, a autoridade máxima em matéria de austeridade.


Mesmo com as certezas que temos nesta crise que já nos ensinou algumas coisas, o Governo português pode - é legítimo - continuar a sua política de mais e mais austeridade, de número um da austeridade no mundo, sempre à espera de alguém que reconheça – de fora do Governo e dos partidos que o apoiam – o mérito deste incrível esforço. Se deixarmos que isso aconteça, então talvez seja mesmo melhor assistirmos a tudo de fora. De Angola ou do Brasil, como já foi sugerido. Ou da Holanda... 


Termino com duas perguntas: Quantas empresas fecharam hoje? Quantas pessoas foram hoje para o desemprego?

ZP às 18:37 | link do post | comentar | partilhar