Combatendo a retórica
Alguns intelectuais com tempo livre defendem que os eleitores devem ler os programas dos partidos. Mas os eleitores devem ler os programas dos partidos, o tanas é que os eleitores devem ler os programas dos partidos.
É como votar, que também parece que é um dever. O dever é as pessoas votarem se quiserem; se lhes aprouver. Não querem votar, não votam. A ideia de que as pessoas têm mesmo de votar é fascista - embora os fascistas não gostem de ver as pessoas a votar. Digo que é fascista nos seus princípios fundadores: tens de votar!
Mas não tens nada de votar. Só votas se quiseres. O mesmo se passa com o programa dos partidos, esse monumento à retórica erguido por assessores que são tão bons a escrever discursos como a dar nós de gravata. Ledes se quiserdes.
Não vou ao ponto, confesso, de dizer que os programas só servem para limpar o cu, mas ando lá muito perto. O que importa é ver os candidatos, olhos nos olhos. Importa conhecê-los. Bem sei que em Portugal temos a mania de pôr tudo por escrito - à conta disso o Queiroz Pereira teve de comprar uma máquina para fazer papel com duzentos metros. Mas mais importante que o documento, o eleitor deve ter confiança no governante. Tem de acreditar na sua capacidade de governar. Não tem de saber se ele quer três ou quatro linhas de TGV, nem tem de se preocupar com a política fiscal, porque quando acreditamos numa pessoa, sabemos que ela fará, tanto na política fiscal como na ferroviária, o que for preciso.
O que acontece neste país, e que é aliás o que o torna ingovernável, é que todos querem opinar. Eu quero duas linhas de TGV, o outro quer cinco. Há quem queira o aeroporto em Lisboa, outros querem nas Berlengas. De repente, todos os portugueses são entendidos em aeroportos e comboios. Como já são, há muito tempo, especialistas em Justiça e Fiscalidade. Que alma lusa não resolve o mais intrincado processo judicial entre duas dentadas na sande?
O problema está, portanto, na falta de confiança do povo no seu Estado. Aceito que em Portugal há sólidas razões para tal, mas o país tem de se deixar governar. O futuro desta patética anarquia, que promove o populismo e a demagogia, não é risonho. Está até à vista de todos que é muito sombrio.
O eleitor deve por isso - regressando ao tema - conhecer os candidatos e as linhas gerais do seu pensamento político. Não deve perder tempo a discutir temas que não pode discutir por manifesta falta de informação. É mais útil conhecer os livros preferidos de um candidato do que a sua estratégia para a agricultura. Eu lamento, mas por mais opiniões que oiça, por mais propostas que leia, não consigo dizer o que é melhor para a agricultura portuguesa. Por uma razão simples: eu não pesco rigorosamente nada de agricultura.
Partindo deste exemplo, o que interessa o meu voto nesta área? Nada, rigorosamente nada. A parte do meu voto que está consignada à agricultura é de uma inutilidade sem paralelo. E qualquer tentativa de avaliar o que é melhor para Portugal em matéria de agricultura ofenderá quem da poda percebe.
Posso, contudo, confiar numa pessoa. Confiar na sua capacidade de reconhecer que também não percebe um boi da lavoura, mas que vai buscar quem perceba. Devo sobretudo confiar numa pessoa que não me ilude com programas para inglês ver, cheios de vivas aos nossos produtos e aos fundos comunitários. Eu não li um único programa de Governo, mas querem apostar que em todos está a referência aos fundos comunitários?
Aposto o que quiserem, porque é isso que está a dar. Como o país acredita que o Partido Socialista desperdiçou fundos, todos os partidos dizem que não se pode desperdiçar fundos. E são eles, supostamente, programas para quatro anos, quando se fundamentam na intriga dos últimos quinze dias.
Com efeito, os eleitores devem perder menos tempo com os programas e com os discursos. Devem procurar confiança na política e nos candidatos. Devem procurar os candidatos que pensam como eles. Pelo menos, o mais próximo deles. Quando não encontram, não são obrigados a votar. Nem branco nem nulo. Isso é outro disparate. É como entrar num restaurante para dizer não venho cá jantar porque não gosto da comida, boa noite.
Votar não deve ser uma obrigação. Votar é a maior manifestação de liberdade de um povo. Quem não quer votar, não vota. Pode sempre ir para a praia ler um livro, que também é cidadania.
