Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010
Só um sôtor

«Sôtores, eu pedia que, por cada sujeito processual, só um sôtor…» – Juíza Ana Peres, na casa de Elvas, a tentar organizar a visita.


A história é simples. De repente, os sôtores começaram a subir a escada e às tantas já nem se sabia onde estava a vítima. A Juíza, percebendo que o rapaz estava a ficar baralhado – a tal ponto que denunciou uma sala no meio das escadas, coisa que nem ao engenheiro Sócrates alguma vez ocorreu – solicitou aos sôtores que ficassem no rés-do-chão, limitando o primeiro piso a um sôtor por sujeito processual.


São tantos os sujeitos processuais no caso Casa Pia que um sôtor por sujeito processual, mesmo assim, é mais gente que a concentração de Faro.


O corredor continuava, portanto, cheio de sôtores. Foi então que a Juíza teve uma ideia e pediu aos sôtores para se afastarem, o que teve graça, porque eles moveram-se dois milímetros para a direita e aparentemente foi suficiente.


Devo dizer, antes de mais, que estou aqui a comentar a visita dos sôtores à casa de Elvas porque o vídeo está no site do senhor televisão. Não sei se por causa disso o senhor televisão está feito outra vez ao bife, mas a verdade é que estas imagens não provam necessariamente a inocência do senhor televisão, mas sim a enorme inocência da Justiça portuguesa.


Então uma Juíza vai com uma vítima fazer o reconhecimento do local onde foram praticados abusos sexuais e leva uma autêntica Love Parade de sôtores? Isto é tão incrível que a primeira coisa que um dos jovens viu, quando entrou naquela casa, foi uma jarra e o sôtor Sá Fernandes. Como é que depois disto se pode identificar o que quer que seja?


Eu percebo que os sôtores tenham o direito de acompanhar as diligências, mas podia ser pela rádio. Como é evidente, acaba por ser intimidador, mas sobretudo estúpido, quarenta pessoas num corredor para quatro e para usarem de cada vez. Nem há oxigénio para todos. Mais cinco minutos de diligência e o Tribunal saía na horizontal.


Já sobre a intimidação, um exemplo: Se eu pedir ao leitor para me indicar onde está a máquina do café no seu local de trabalho, a resposta será pronta. Agora diga-me onde está a máquina do café à frente destes sôtores, nomeadamente à frente do sôtor Sá Fernandes e desta jarra. Vá, onde está a máquina do café? Aqui? Ou ali? Hã! A máquina do café? Rápido!


Pois é, talvez os sôtores atrapalhem um bocado. Mas não é minha intenção defender alguém. Não sei nem quero saber se aqueles jovens estiveram algum dia em Elvas. O que procuro é uma Justiça digna e não só digna para o relacionamento entre os sôtores, que chegam ao ridículo de se tratarem por sôtores mesmo quando a pessoa é indefinida.


A conclusão disto tudo? Deram-se como provados abusos contra um jovem que afirmou ao Tribunal que havia uma sala no meio das escadas. Essa prova está no site de um dos condenados. É um vídeo que mostra mais sôtores que casa de Elvas, mas enfim… não podia existir uma sala no meio das escadas e parece que o Tribunal também provou que não houve obras. Acórdão? Ainda não há e duvido que esclareça isto.


Pronto, é a Justiça que temos. Não é má, mas talvez tenha sôtores a mais.



publicado por José Costa e Silva às 02:46
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Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010
Todos ao Alfeite!

A pergunta que se coloca agora, depois de recebermos oficialmente o submarino Tridente, é: Cabemos lá todos?

 

Se não coubermos, calma, não há problema, parece que vem lá outro. As senhoras podem ir já neste, os cavalheiros seguem no próximo.



publicado por José Costa e Silva às 01:15
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Quarta-feira, 8 de Setembro de 2010
Ya

O risco da dívida sobe, a selecção nacional perde, o Orçamento pende, a crise aperta e o pedófilo desbunda. Dizem que o Governo não pode fazer nada, no imediato, para nos ajudar a ultrapassar isto.

 

Mas pode. Pode liberalizar as drogas leves.



publicado por José Costa e Silva às 08:37
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Terça-feira, 7 de Setembro de 2010
Belisquem-nos, por favor

Se fosse muito rico – sou apenas bastante rico, mas não digam às Finanças, pois declaro dez mil euros anuais – contratava uma pessoa só para me beliscar. Bom, se fosse mesmo muito rico, largava ferro para Portofino. Mas admitindo que passava grandes temporadas em Portugal, precisava de alguém para me beliscar, porque este país, contado, ninguém acredita.

 

Hoje dei com declarações de José Maria Martins, que afirma: «Ferro Rodrigues e Jaime Gama também deveriam estar aqui, já que os jovens que acusaram Carlos Cruz também os acusaram».

 

Jaime Gama é apenas a segunda figura do Estado. Às vezes podia ser alguém importante, mas não, é apenas a segunda figura na hierarquia do Estado. Belisquem-me, por favor.

 

Ou o advogado de Bibi tem razão e é gravíssimo ou o advogado de Bibi não tem razão e é gravíssimo. Mas na mesma é que não se pode ficar depois disto. Belisquem-me por favor.

 

Com efeito, uma pessoa não pode dizer que o presidente da Assembleia da República devia ser julgado por pedofilia e depois ir comer um bife à Trindade. Ou então pode, mas nesse caso quem não pode ir comer o bife à Trindade é o presidente da Assembleia da República.

 

Adiante, leio também, no site de Carlos Cruz, o seguinte: «No entanto, esta testemunha apenas refere um sinal. Sinal esse, aliás, dotado de invulgar mobilidade, pois transitou do pénis do então arguido Paulo Pedroso para o meu.» Belisquem-me, por favor.

 

A única boa notícia chega-nos da Rainha de Inglaterra que já disse que o Ministério Público precisa de analisar o acórdão ao pormenor para saber se recorre. Que bom, parece que eles são muito rigorosos. Parece que vão analisar ao pormenor. Belisquem-me, por favor. Ao pormenor, quando falamos de um acórdão com quatro mil páginas e oito anos de processo, significa até sempre.

 

É verdadeiramente incrível. Como pode um processo desta gravidade demorar tanto tempo e acabar com mais acusações e dúvidas do que quando começou? Como é que é possível? Tantos dias, tantos papéis, tantos meios, tantas audições, tantos euros, tantos magistrados a tempo inteiro, funcionários judiciais, polícias, tribunais… tanto tempo e trabalho depois… o mínimo que se pedia era um caso encerrado, em vez de uma Pandora aberta.

 

Belisquem-me por favor.



publicado por José Costa e Silva às 00:47
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Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010
Parem o monta-cargas que vou buscar mais ketchup!

Há pouco, nas Amoreiras, iam as portas quase fechando quando me irrompe pelo elevador uma mastronça. Estávamos então no segundo piso e ela carregava o seu jantar, comprado no McDonald’s.

 

Nessa altura já eu estava num cantinho, prontinho para seguir para o piso -2. Tomou ela, portanto, os comandos da máquina, carregando no piso 1 e depois em todos os botões, incluindo o da ventoinha, à procura daquele para fechar as portas mais depressa.

 

Estive para lhe dizer que não tinha de se preocupar comigo, pois embora a contragosto, aguentaria perfeitamente uma viagem tão curta com uma mastronça tão grande. Tive medo, porém, que não fosse essa a sua intenção, ao procurar fechar as portas tão depressa. Podia querer sexo – pensei eu, embora rapidamente me tenha ocorrido que já tinha hambúrgueres, pelo que só depois da digestão lhe viria semelhante actividade à cabeça, e sendo certo que sexo, neste caso, deve ser só uma desculpa para ir buscar mais um Sundae.

 

Enfim, cinco segundos depois de partirmos do piso 2, lá chegámos ao piso 1, destino da mastronça. Fiquei-lhe a olhar para o rabo e a pensar na vida.

 

Devo dizer que não estou a criticar uns quilos a mais, sob pena da minha própria barriga me franzir o sobrolho. O que critico é o estilo de vida de uma rapariga que janta no McDonald’s e desce um piso de elevador. Um piso! As escadas estavam ali ao lado e são umas escadas óptimas. Nem os italianos têm uma escadaria daquelas lá na bota.

 

Bom, depois há a questão do stress. Não satisfeita com os dois belíssimos tiros no céu na boca que já configuram semelhante jantar e tanto sedentarismo, a mastronça ainda se abespinha com a lentidão das portas do elevador, cujo compasso de espera, creio, foi até mais por segurança, pois o elevador quis certificar-se de que tinha entrado aquele rabo todo, para não entalar um bocado de nalga.



publicado por José Costa e Silva às 00:34
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Sábado, 4 de Setembro de 2010
Lóbi overseas

«Estamos nesse maravilhoso período da rentrée política. O PCP lá está na sua Festa do Avante, com as habituais reportagens sobre comunistas que trabalham na feira sem receber um tostão, como se trabalhar sem receber um tostão fosse bonito.»

Digo eu, entre outras coisas, no simpático Delito de Opinião, que me convidou a escrever um post.  



publicado por José Costa e Silva às 16:42
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Speechless

 

As senhoras e os senhores, façam o que fizerem, oiçam, por favor, este discurso de Guilherme de Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas, na Universidade de Verão do PSD. Não digo mais nada.



publicado por José Costa e Silva às 00:45
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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010
Encarcera-se os tarados e está feito?

Há uma coisa extraordinária, nisto do processo Casa Pia. Independentemente da identidade dos abusadores, os abusos aconteceram e os abusados eram alunos da Casa Pia. Havia até um motorista da Casa Pia, pedófilo, que os levava, numa carrinha da Casa Pia, até aos abusadores.

 

Este serviço de autêntica prostituição pedófila desenvolveu-se, durante muito tempo, com alunos da Casa Pia e meios da... Casa Pia. (Bem sei que me repito, mas é deliberado.)

 

Como é que não há responsáveis da Casa Pia e da tutela condenados pela sua criminosa incompetência ou eventual cumplicidade? Como? Será que estão a gozar as suas reformas, pessoas que permitiram, conscientemente ou não, que um homem andasse com alunos menores de um lado para o outro, numa carrinha da instituição?

 

Isto cabe na cabeça de alguém? Pense o leitor se admitia uma situação destas numa instituição que governasse. Independentemente de suspeitar de pedofilia – porque nesse caso, então, nem sei que nome se dá à incompetência – teria o leitor permitido que os jovens andassem com um funcionário por locais obscuros, durante horas e mesmo dias?

 

Claro que não. E não se pode admitir a hipótese de os responsáveis desconhecerem o que se passava, porque se desconheciam também são culpados por desconhecerem.

 

A Casa Pia falhou em toda a linha, mas ninguém foi responsabilizado. É notável. A presidente do colectivo de juízes proferiu hoje umas palavras relativamente a esta negligência da instituição.

 

Palavras? Permitiu-se que pedófilos chegassem às crianças - aliás, permitiu-se que levassem as crianças até aos pedófilos – e condena-se isso com um raspanete? A culpa não é naturalmente da presidente do colectivo de juízes, porque não era esse o caso que a magistrada estava a julgar, mas não chega.

 

Hoje condenaram-se pessoas por abuso sexual de menores, mas uma das maiores vergonhas deste processo, a falha ignóbil na protecção de crianças indefesas, saiu incólume, apenas com um pequeno reparo circunstancial.



publicado por José Costa e Silva às 19:56
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Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010
Acabar com as listas de espera

«Aprovada simplificação do processo de mudança de sexo e de nome.» - Público

Louvado seja o Senhor, que isto às vezes uma pessoa estava uma manhã para mudar de sexo e às vezes tinha de lá voltar!



publicado por José Costa e Silva às 18:37
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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010
A estranha unanimidade de Cavaco

«Se nós acreditamos na social-democracia, faz todo o sentido que façamos tudo para que continue em Belém um social-democrata, gostemos muito ou pouco daquilo que faz na lei A, B, C, D, do estilo, se ri muito, se ri pouco, sorri muito, sorri pouco, se é mais simpático ou menos simpático.» - Marcelo Rebelo de Sousa, na Universidade de Verão do PSD, citado pelo Público.

 

Será Portugal o único país democrático no mundo que tem um Presidente da República que ninguém admira, nem os seus próprios correligionários? Há alguém que defenda Cavaco incondicionalmente, sem estes "sim, mas" ou "está bem, porque"?

 

Não há. É impressionante. Se Cavaco for reeleito será contra a vontade de todos os portugueses. Em certa medida, isto é histórico. Nem os reis conseguiram tal façanha.

 

Mas a mim, Marcelo não me convence. O mandato de Cavaco foi, como seria de esperar, muito fraco, porque foi barulhento e extraordinariamente partidário, como também seria de esperar.

 

Cavaco empenhou Belém numa campanha contra a idoneidade do Governo, onde até houve espiões e vulnerabilidades. Essa campanha era liderada oficialmente por Ferreira Leite, então à frente do PSD. Contas feitas, as ajudas de Belém não surtiram o efeito desejado, mas influenciaram naturalmente as eleições, num escândalo que só em Portugal podia passar sem consequências.

 

Pelo seu papel, o Presidente é também responsável pela crise política e pela crise na direita. Não é o único responsável, mas é seguramente o mais influente.

 

E por tudo isto – lamento, Professor Marcelo – mas eu, que me posiciono milimetricamente ao centro e que por isso gosto de direitas fortes e esquerdas solidárias, sou incapaz de votar no Professor Cavaco. A não ser para a Junta, que até precisa de um tesoureiro.



publicado por José Costa e Silva às 00:05
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Terça-feira, 31 de Agosto de 2010
Na, na ,na ,na, na, não queremos cá ricos, xô

Se o Estado quer ter mais dinheiro dentro de fronteiras, aumentar a receita fiscal com mais matéria tributável ou convencer alguns capitais a regressarem ao seu país de origem para uma idade de ouro, então o caminho não é definitivamente perseguir as fortunas, porque as fortunas não são crimes. Podem ser, mas aí o problema também não é fiscal.


Com efeito, sempre que oiço falar neste combate à evasão feito a partir de sinais exteriores de riqueza, dos carrinhos, dos barquinhos ou dos jactinhos, parece que sinto os advogados a tirarem os pés da mesa e, pouco depois, oiço dinheiro a voar.


Muitas vezes – e chamo a vossa atenção para a parte mais curiosa do tema – são os próprios mentores políticos dos grandes esquemas de combate à evasão fiscal que, um dia mais tarde, vão dar asas ao dinheiro dos seus clientes.


Por cá ficam os rendimentos mais baixos, algumas riquezas sofríveis e uma ou outra fortuna maluca que só não vai para a praia porque os seus titulares nunca saíram da cama para fazer as contas.


Bom, mas a verdade é que não é possível um governante dizer que vai deixar de penalizar os mais ricos, porque os pobres e os remediados ficam doentes. Não sonham, os pobres e os remediados, que se o barco daquele milionário tivesse sido comprado em Portugal em vez de se abrigar naquele paraíso longínquo, o Estado podia encaixar meio milhão em impostos.


Não. Os pobres e os remediados querem que o Estado lhes saque quatro ou cinco milhões, julgando que com isso lhes estragam as férias. Mas o barco lá está na doca e para o Estado português, se tudo correu bem, nem um cêntimo foi.


Não há problema, porque os pobres e os remediados trabalharão todos os dias, de manhã à noite e sempre de cabeça erguida, para suprir qualquer coisinha que podia ter entrado e não entrou.


Quando se fala em barcos podia falar-se em dinheiro, dinheirinho, que podia estar aqui mas está muito longe daqui. E cada dia que passa vai sendo pior porque os portugueses estão conjunturalmente deprimidos e porque assomam mercados muito mais interessantes para as fortunas.


Voam pessoas e dinheiro todos os dias! E nós, em vez de tornarmos este belo país mais agradável para se estar, para se criar e gerir riqueza, preferimos regressar à lengalenga da evasão fiscal e da fortuna e do barquinho.


Ademais, para dizer que estamos a falhar, o que é ainda mais divertido. Afugentamos a riqueza, ganhamos má fama e não aparamos nenhum golpe. Será que não há por aí nenhum benfeitor rico disponível para erguer uma estátua a… nós?

 

Podia ficar ali no Terreiro do Paço, em frente ao Ministério das Finanças. Ficava bonito um bobo no alto e uma inscrição: «Aos contribuintes portugueses que salvaram a pátria de ter cá ricos. (Estátua oferecida pelo Senhor Manuel Afortunado, que desta forma baixou 1% no IRC de uma pequena empresa que só mantém em Portugal para dar emprego a um primo afastado.)»



publicado por José Costa e Silva às 02:23
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Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010
Futebol, para variar

Talvez por causa do calor, ocorre-me falar de futebol. Não sobre o jogo jogado, que disso não sei nada e duvido que alguém saiba, porque de outra forma não daria azo a tanta discussão.


É sobre Simão e sobre Queiroz que gostava de falar.


Simão abandonou a selecção nacional. Enviou uma carta ao presidente da federação. Não fez uma conferência de imprensa, não falou aos adeptos. Falou só ao patrão e talvez porque é obrigado.


Já quando saiu do Sporting, o comportamento do jogador demonstrava que não devia nada ao clube que o fez profissional de futebol. Agora também não deve nada a ninguém. Bom para Simão. É um rapaz de contas certinhas.

 

Ora, é também por causa de contas que me ocorre falar de Carlos Queiroz. Devo dizer que não simpatizo com o seleccionador nacional. Era até capaz de aprender um bocado de futebol só para poder dizer que ele não percebe nada daquilo.


Resulta daqui que, em meu entender, o contrato que ele fez com a federação é um escândalo. É muito dinheiro. É imenso dinheiro, mesmo sem contar com a publicidade. E tinha segurança a mais, porque parece-me elementar que num contrato que visa uma competição desportiva exista uma cláusula de rescisão por resultados.


Bom, mas o contrato é legal e foi celebrado livremente. Foi negociado entre todos e as condições aceites por todos.


Assim, estas manobras manhosas para correr com o seleccionador são inadmissíveis, sobretudo quando se trata de uma instituição pública e que por isso, nem que seja só por isso, não pode tratar desta forma os seus compromissos, por mais absurdos que sejam.



publicado por José Costa e Silva às 19:15
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Os paladinos da mendigagem

«Vamos ser rigorosos sobre o que isto é e o que não é. Não, não se trata de imigrantes ilegais: os cidadãos romenos são comunitários e têm direito à livre circulação pelo território da União. E, sim, isto é uma limpeza étnica, ou seja, uma expulsão de um dado território de uma população circunscrita por critérios étnicos.» - Rui Tavares, no seu blogue, sobre as “expulsões francesas”.

 

Vamos lá então ser mesmo rigoroso sobre o que isto é e o que não é. Sim, sim, trata-se de imigrantes ilegais: não, os cidadãos romenos, ou outros, não têm o direito de acampar num país vizinho. Os habitantes da Guarda, por exemplo, não podiam acampar nos Campos Elísios. A livre circulação não compreende o livre acampamento e afirmá-lo é desconhecer as regras da livre circulação.

 

«Limpeza étnica»? Rui Tavares sabe bem o que quer sugerir quando fala em «limpeza étnica», mas devia analisar bem as condições que foram dadas pela República Francesa a comunidades inteiras de imigrantes ilegais, que só revelam respeito pelo Homem e estão longe de poder ser comparadas às limpezas étnicas que a nossa história regista.

 

Mas Rui Tavares, ao longo de tantas linhas, não aborda os problemas da Roménia nem caminhos para ajudar estas pessoas – os “pequenos”, como apelida. Será que estão bem como estão, arrumados assim em acampamentos, longe da nossa vista? Será que está resolvido o problema?

 

Não, não está. E a pequenez é nossa se nos conformamos com esta miséria. «Mais vale ser mendigo no estrangeiro do que trabalhar na Roménia», afirmou um repatriado, citado pelo DN. Pois bem, como parece evidente, o problema está na Roménia e a solução não está em França. E quem diz Roménia podia dizer outro país com problemas internos. E quem diz França diz outro país com problemas de imigração ilegal.

 

A não ser que nos convençam, Rui Tavares e outros, que devemos defender a mendigagem.



publicado por José Costa e Silva às 13:17
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Domingo, 29 de Agosto de 2010
Palavra do Presidente

Como não entrou nenhuma proposta de revisão constitucional no Parlamento, para o Presidente da República não há nem pode haver debate sobre uma futura revisão constitucional.

 

O jornalista repetiu a pergunta e o Presidente repetiu que não há qualquer proposta de revisão constitucional no Parlamento.

 

É verdade que não há qualquer proposta no Parlamento, mas há debate e o Presidente não o pode ignorar. O maior partido da oposição – do qual Cavaco foi líder e feito primeiro-ministro – colocou o tema da revisão constitucional na agenda, com um conjunto de ideias que defendeu acerrimamente.

 

Ao insistir que não foi aberto qualquer processo de revisão constitucional, o Presidente está a tergiversar outra vez, até porque o debate que foi lançado pelo PSD não terá só implicações numa eventual proposta de revisão constitucional, isto admitindo que ainda há o mínimo de coerência na vida política nacional.

 

Por exemplo, na discussão do próximo Orçamento Geral do Estado, a Saúde será necessariamente um problema, porque PS e PSD não podem estar de acordo.

 

O PSD está contra o Serviço Nacional de Saúde tal como existe – tem até uma proposta (não, proposta o Presidente diz que não há), tem até apontado num guardanapo que se deve eliminar o SNS da Constituição (pronto, assim está melhor) – e o PS é o seu mais convicto defensor. Perante isto, não vejo como podem chegar a acordo sobre verbas para esta área.

 

Resulta daqui que ideias ou intenções sobre uma revisão constitucional não podem ser ignoradas pelo Presidente da República, mesmo quando ainda não foi aberto o respectivo processo. E, na verdade, parece-me que o Presidente também não as ignorará, mas diz-nos que sim e é isso que incomoda muito nele.



publicado por José Costa e Silva às 09:31
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Sábado, 28 de Agosto de 2010
O que está mal é existirem países, não?

Quando se critica Sarkozy, é bom ter presente que ele é presidente da República Francesa, não é líder de um acampamento. A sua missão é defender os interesses de França e dos franceses.

 

Em respeito, claro, pela lei, por todas as leis, mas não consta que Sarkozy tenha violado alguma. Até um ministro romeno disse, em conferência de imprensa, que não estamos perante uma expulsão, mas sim perante uma saída voluntária sob proposta do governo francês.

 

Então, qual é o caso? Não há caso nenhum. Estamos a falar de imigrantes ilegais e de um país que os convidou a regressarem aos seus países de origem, pagando-lhes o avião e trezentos euros por adulto, mais cem por criança.

 

Como é que isto pode ser condenável? Oxalá os países ricos tratem assim, sempre, a sua imigração ilegal. Ou então – como parecem querer alguns – acaba-se com o conceito de imigração ilegal e toda a imigração é legal. De caminho, acabe-se também com os países, que sem povo e território só lhes resta o poder político.

 

Ora esse, se nem expulsar imigrantes ilegais pode, então também não existe.



publicado por José Costa e Silva às 16:30
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Molhe

[Imagem: JCS, com Nokia E71]



publicado por José Costa e Silva às 10:01
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Quinta-feira, 26 de Agosto de 2010
Uma semana no jardim, à sombra, na luta

Em São Bento, mesmo ao lado do estabelecimento do engenheiro Sócrates, estão há dias grevistas, num belíssimo jardim, com uma belíssima sombra, sentados numas mesas, com catering e tudo. De manhã as mesas e as cadeiras estão arrumadas. À hora de almoço estão todos lá sentados… na luta!

 

Em reparando que a greve era do sindicato da Administração Local, fui ao sitio deles ver do motto: «Activistas sindicais do STAL estarão durante a próxima semana, de 23 a 27 de Agosto, em vigília de protesto junto à residência oficial do primeiro-ministro, numa acção de luta que pretende contestar as ingerências do Governo na esfera da Administração Local e preparar a greve nacional do sector convocada para 20 de Setembro.»

 

Ingerências do Governo na esfera da Administração Local?  Com a breca, até existe uma Secretaria de Estado da Administração Local! Das duas, uma: Ou o poder do Governo sobre a Administração Local decorre da Lei ou a ingerência é tão grande que até foi criada uma secretaria de Estado.

 

Seja como for, o que o STAL quis foi reservar aquele jardim em São Bento, com aquela maravilhosa sombra, para os seus associados, durante uma semana. Foi ou não foi? Quais ingerências do Governo na esfera da Administração Local, qual quê!?

 

Claro que isto acaba por ser um bocado ultrajante para as pessoas que estão a ficar sem emprego, de norte a sul do país, mas estes senhores, preocupados com as ingerências, querem lá saber do desemprego... Ainda hoje estive na falida Papelaria Fernandes. O empregado tinha escrito na testa «estou feito». Estava nervoso. Respondeu-me branco e esgotado. Foi ali na Papelaria Fernandes do Rato.

 

Agora que não tem emprego, pode sempre pôr um boné do STAL e ir protestar por causa das "ingerências do governo", a ver se dá uma ajuda a estes "activistas sindicais".



publicado por José Costa e Silva às 19:09
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Senhoras e senhores,

 

 

O Presidente da Junta de Freguesia de Fóios. Este sim, é um autarca-modelo.


publicado por José Costa e Silva às 13:14
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Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010
Oriente Express

 

Será que a Porsche está contente com o seu novo Hyundai?

 

Hein!? Isto, a gente, se quer continuar a ter coisas bonitas no mundo, o melhor é investirmos forte nos piigs europeus, na América e em África, porque o resto do mundo vai estar a fazer a vontade ao oriente pujante; e não tarda estamos todos de máquina ao peito deslumbrados com as montras da Louis Vuitton, nessa altura já com malas de borracha e isqueiros de fogão.

 

Lamento, mas quando vejo um Porsche parecido com um Hyundai, interrogo-me sobre o sentido para a vida: o que andamos aqui a fazer?



publicado por José Costa e Silva às 19:09
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Presidenciais, uma abordagem monárquica

 

Paulatinamente, vão-se constituindo mais candidatos à Presidência da República que herdeiros do senhor Feteira. Resultava, portanto, francamente mais económico e menos barulhento pôr lá o Senhor D. Duarte.

 

- Ah, mas não, que ele pode fazer asneira...

- Damos-lhe um grito!

 

[Meses depois, em Belém.]

 

- Eh, vou aqui promulgar esta lei... ou isto são as instruções do Range Rover!? Não, não, é mesmo uma lei, diz aqui "lei não-sei-quê, barra não-sei-quantos, de tantos-do-tal". Vou promulgar, antes que lhe deixe cair mais chá em cima.

- D. DUARTE!

- Ai! Que fiz eu de errado? (Isabelinha, alcança-me os calmantes...)

- Não vê que esta lei é contra os bons costumes? Vete!

- Mas... e o primeiro-ministro... não ficará maçado? Isto deve ter dado muito trabalho... Pesa mais que o Príncipe Dinis!

- Senhor D. Duarte, o povo espera de si que faça o que é melhor para o país!

- Gaita, então nesse caso devo resignar!

- Por Deus! Não tem de levar tão à letra o que o povo diz. Vete só esta lei, por favor.

- Vetarei então, mas se o Governo me corta o fornecimento de lenha neste Inverno, irás tu cavaleiro, a tua expensas, buscá-la ao Leroy Merlin.



publicado por José Costa e Silva às 00:01
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Terça-feira, 24 de Agosto de 2010
A mais maravilhosa meloa

 

 

A maioria das pessoas julgará que a ilha de Santa Maria, nos Açores, é apenas um radar gigante de controlo aéreo, ignorando que é de lá que sai a mais maravilhosa meloa do universo.

 

Sim, a meloa de Santa Maria nem tem concorrência. Às vezes podia dizer-se que havia por aí umas meloas muito semelhantes, mas não é o caso.

 

No Kampai – um restaurante japonês na Calçada da Estrela, em Lisboa, que deve ir parar directamente às vossas agendas - serve-se meloa de Santa Maria. Aliás, no Kampai vem tudo dos Açores. O mesmo será dizer que é tudo muito bom.

 

E não, não estou aqui em Lisboa, armado em snobe, a adorar orgulhosamente as nossas terrinhas e os nossos produtinhos, como quem dá empurrõezinhos à pátria. Não! O peixe, os legumes e a fruta dos Açores são um caso sério de qualidade. Estamos a falar de ouro.

 

Curiosamente, enquanto ultimava este maravilhoso artigo sobre a maravilhosa meloa de Santa Maria, dou de caras com o maravilhoso Lobo Xavier a gabar o melão casca de carvalho, de cuja confraria é aparentemente confrade, caso contrário saiu à rua com uma vistosa capa amarela.

 

Meu caro Lobo Xavier, o seu melão até pode ter uma casca do carvalho, mas a minha meloa é de puta madre.



publicado por José Costa e Silva às 08:46
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Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010
Alto lá!

- Aonde pensa que vai aos comandos desse veleiro? – Pode ter sido esta a abordagem da Polícia Marítima portuguesa à jovem velejadora holandesa que vai circum-navegar o mundo sozinha e sem idade para sequer circum-navegar o bairro de scooter.

 

O caso foi muito discutido, lá na terra dela. O tribunal primeiro disse que os pais eram malucos, mais tarde manteve que os pais eram malucos mas lá deixou a rapariga seguir uma viagem que começaria aqui, em Portugal, não fosse a Polícia Marítima descobrir que a pequena velejadora não está habilitada para governar a embarcação.

 

Claro que não está. Ela tem 14 anos! Nem se pode governar a si própria, quanto mais uma embarcação!? Creio, porém, e salvo melhor opinião dos capitães do nosso mar, que estamos perante uma situação excepcional.

 

Com efeito, muito honraria a nossa pátria que uma viagem destas, repleta de bravura marítima, começasse nas nossas águas, porque foi deste mar que os mais destemidos se largaram, também ao desconhecido, por mares nunca de antes navegados.

 

Quando soube que a Polícia Marítima tinha escoltado Laura Dekker até sair de águas territoriais portuguesas, confesso que imaginei uma escolta de cortesia, com salva de tiros e tudo. Mas não, parece que foi escoltada daqui para fora por “não estar habilitada para navegar a embarcação”!?

 

Mas que país de marinheiros é este!? Que alteração na genética se deu assim tão de repente, que de heróis passámos a mariquinhas burocratas!? Que vergonha enorme foi esta de corrermos com uma marinheira de palmo e meio, embora de barba rija, daqui para fora!?

 

Enfim, o problema foi ultrapassado. A Laura vai começar a sua aventura em Gibraltar, sendo absolutamente certo que, se tiver de voltar a passar por Portugal, será seguramente ao largo.

 

E parece ser só desta forma – tristemente o digo – que ainda se acha graça a Portugal: ao largo, do alto mar. De longe.



publicado por José Costa e Silva às 13:02
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Sábado, 21 de Agosto de 2010
Tantos pobres e logo havia Feteira de ser rico

 

Um industrial de Vieira de Leiria. Uma filha Olímpia. Uma amante com dois balázios em plena Maricá.

 

Aguente-se, mas o advogado Duarte Lima é indispensável para tornar este escândalo minimamente interessante. As restantes personagens, por mais dinheiro que tenham levado do velho Feteira, são de uma pobreza confrangedora.

 

O próprio Duarte Lima não é o protótipo do advogado milionário que arruma uma cliente por causa de uns poucos de uns milhões de euros. A ser verdade o rumor que sobre ele se espraia, teve de ir pessoalmente ao Brasil tratar do assunto. Pergunta-se então – para que servem os estagiários?

 

Numa história destas, o mínimo que se podia esperar do advogado era que estivesse no alla Scala a assistir ao Otello enquanto a sua cliente era assassinada por um recém-licenciado nervoso e ainda com muitas dúvidas sobre a legalidade daquele acto – nomeadamente por causa da jurisdição – tudo no exacto momento em que em Milão também Otello liquida a Desdémona, não por dinheiro, mas por ciúmes, que é a mesma coisa.

 

Aliás, Desdémona também deve ser herdeira do Feteira, desde logo pelo nome – este caso está cheio de nomes próprios impróprios – mas sobretudo porque toda a gente é herdeira do Feteira – menos eu e provavelmente o meu leitor.

 

[Imagem: via Google Images]



publicado por José Costa e Silva às 15:30
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Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010
Santini, Artisani, conchanata, motorizada do Abílio...

 

Vendedor de gelados ambulante, Lisboa, 19 de Agosto de 2010.

[Imagem: JCS, com Nokia E71]



publicado por José Costa e Silva às 00:35
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Quinta-feira, 19 de Agosto de 2010
Cinco estrelas

Os destaques do Sapo, hoje, não são do Sapo, são meus – a convite do simpático batráquio, é certo. Falamos de cinco estrelas: Mel com Cicuta, Ouriquense, As Moscas do Costume, Ondas3 e Bairro Melancómico.

 

Espero que gostem, porque se não gostam também não podem trocar.



publicado por José Costa e Silva às 18:30
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Um cantinho? Ao fundinho...

 

«O senhor é de Lisboa?» - Perguntou-me uma senhora num português mau demais para ser verdade, embora bom demais para ser estrangeira.

 

Estive para lhe dizer que não, que sou um cidadão do mundo, mas calculei que aquela família quisesse apenas encontrar um sítio para almoçar. - «Sou, sim.»

 

«Sabe de algum cantinho, por aqui, para se almoçar?» - Eu não disse? Queriam comer! E... "cantinho"? Somos o único povo que designa uma porção de espaço por "cantinho". Eram oficialmente portugueses!

 

«Está a ver aqueles prédios ao fundo? Aquilo é Belém. Há lá muitos cantinhos para almoçar.» - Respondi, omitindo que a maioria dos "cantinhos" de Belém são caros p'ra burro e p'ra o que se come.

 

Ludibriei assim cinco almas lusas de visita à capital do império. Mas calma, porque se os tivesse mandado para o Vela Latina não teriam sido mais felizes, porque o que eles queriam era um "cantinho".



publicado por José Costa e Silva às 15:00
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Berlengas - Ilhas Sós (reloaded)

 

Uma visita ao arquipélago das Berlengas começa sempre como termina: com uma viagem de barco. A ligação de Peniche às ilhas é, por isso, parte importante da jornada.

 

No porto de Peniche há três ou quatro operadores turísticos que oferecem programas completos ou apenas a travessia. É preciso por isso fazer uma boa escolha e não entrar no primeiro barco, pronto a sair e com o melhor preço.

 

A minha expedição, neste aspecto, não correu bem. Fiz-me ao Atlântico num barco lento, esguio e alto, que me fez chorar durante uma hora por um casco mais corpulento e um motor vinte vezes mais potente. Aliás, no conjunto das duas viagens fomos ultrapassados por todos os barcos que ligam Peniche às Berlengas; e ao dobrarmos o cabo Carvoeiro comecei a contar as pessoas - a sobrelotação era evidente - e a dividi-las por balsas. Estava preparado para gritar, a qualquer momento, «as senhoras seguem já nesta, que tem uma boa reserva de atum, os cavalheiros vão naquela que expirou em 2005».

 

 

Continuar a ler Berlengas - Ilhas Sós (reloaded) )


publicado por José Costa e Silva às 00:01
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Quarta-feira, 18 de Agosto de 2010
Crise na última casa de chá da uptown lisboeta

 

 

Lisboa tem poucas pastelarias com história, qualidade e maneiras. A Pastelaria Versailles, na Avenida da República, ainda vai sendo uma delas, só não sei até quando.

 

Conheço-a razoavelmente bem porque foi lá que, durante algum tempo, tomei o meu pequeno-almoço, todos os dias. Estamos a falar de uma altura em que eu tomava o pequeno-almoço porque o meu pai tinha a gentileza de me levar à escola e parava lá. Se não for assim, obrigado, o meu pequeno-almoço consiste basicamente em furtar iogurtes aleatoriamente de frigoríficos, calhando por vezes sabores que nem tolero.

 

Bom, mas nunca deixei de visitar a Versailles. Há pouco tempo estive lá e depois de contornar o meliante que se apoderou das portas vaivém, dei de caras com um suporte de guardanapos da Vigor. Bastava um relógio da Sumol ou uma arca frigorífica da Menorquina e estava assassinada a pastelaria.

 

Nem relógio nem arca, por enquanto, mas uma reportagem da TVI, transmitida ontem, acaba por ter o mesmo efeito. A notícia era sobre a crise nas pastelarias e a necessidade de aumentar o preço do café, cobrar copos de água ou cortar nos paus de canela.

 

Então não é que o responsável da Versailles falou? E não é que confirmou a crise e a possibilidade de vir a tomar estas medidas?

 

Aumentar os preços ainda se compreende, mas agora… falar à televisão sobre a velha crise? Cobrar copos de água? Cortar nos paus de canela? Que discurso mais deslocado.

 

Por favor, salvem a Versailles do pastelaricídio iminente.



publicado por José Costa e Silva às 00:15
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Terça-feira, 17 de Agosto de 2010
Guerra? Mas, mas...

 

Do oriente chega-nos a notícia de uma antiga colónia que anda saída da casca. Às ordens da República Popular da China, Macau não deu autorização ao nosso navio-escola Sagres para atracar, porque parece que a autonomia da região não permite a visita de navios de guerra.

 

Navio de guerra? Em que guerra podia entrar o nosso navio-escola Sagres quando nem de uma pequenina escaramuça conseguiria sair ileso? O navio-escola Sagres está mais perto de entrar numa residência sénior de José de Mello do que numa guerra.

 

Portanto, que autoridades chinesas são estas que, indiferentes às características deste simpático navio-escola, proíbem-no de atracar num porto que já foi dele? São porventura burocratas ocidentais do oriente, concentrados no que diz o livrete: Marinha Portuguesa.

 

Mas – pergunto – não será uma ameaça maior temer a Marinha Portuguesa, quando nem a nossa frota toda reunida, submarinos incluídos, aos tiros no mar do sul, justificaria acordar o ministro da Defesa chinês?

 

Enfim, ao serviço de Portugal desde 1962, o Sagres começou a sua carreira como navio-escola da Alemanha nazi, em 1937. Foi entretanto capturado pelos Estados Unidos, no final da segunda grande guerra, e logo vendido ao Brasil, que nele fez escola durante treze anos, até vender a Portugal.

 

Como é que se recusa abrigo a um vetusto navio-escola com 73 anos de história é que eu não sei... Que raio de mundo é este!?

 

[Imagem: Marinha Portuguesa]



publicado por José Costa e Silva às 13:38
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Segunda-feira, 16 de Agosto de 2010
Então, boa viagem, sim

 

O Titanic naufragou num mar de ironia. Os seus engenheiros garantiram ao mundo que nada podia destruir aquele que era seguramente o maior e mais robusto navio de passageiros construído até então.

 

Na verdade, afundou logo na primeira viagem. Um icebergue deu cabo da bazófia do estaleiro e só ficou a ironia de um barco tão seguro circunscrever a maior e mais robusta tragédia marítima da história da humanidade.

 

Em Abril de 2012, cem anos depois do galo, um cruzeiro prepara-se para repetir a viagem do desastrado Titanic, traçando a mesma rota e transportando parentes dos malogrados milionários – menos Di Caprio – que um dia embarcaram no “barco dos barcos”. Ora, o pensamento que nos ocorre imediatamente será "bom, isto agora não vai ao fundo...".

 

Pois... Por muito que goste de uma bela ironia, nesta brincadeira é que eu não me metia. Não, seguir na esteira do Titanic na companhia de familiares e amigos dos náufragos não é um bom programa. Salvo melhor opinião ou uma boa balsa.

 

[Imagem: Wikipédia]



publicado por José Costa e Silva às 21:53
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