Esta saída de Passos Coelho sobre o desemprego significa que, se ele for muito inteligente, é também um homem muito tímido e não gosta de exibir essa eventual inteligência. Digo isto porque é incrivelmente estúpido numa altura como a que atravessamos, em que o desemprego atinge valores históricos, vir lembrar as virtudes do desemprego.
Em geral, o que o primeiro-ministro diz sobre o desemprego é verdade. Muitas pessoas podem encontrar nele o desafio para criar o próprio emprego, uma empresa, um negócio, uma arte, seja o que for. Mas não deixa de ser estúpido, repito, falar nisso agora.
Porquê? Porque nem todas as pessoas podem criar o próprio emprego, uma empresa, um negócio, ou lançar-se numa arte. Nem a economia de um país admite que todos e cada um detenham o seu negócio. Essas airosas saídas para o desemprego serão sempre casos notáveis, mas excepcionais.
Passos Coelho sabe, espero eu, que as pessoas que estão diariamente a ir para o olho da rua não podem, todas, ir a correr fazer uma empresa. Até porque, com a carga fiscal que está instalada em Portugal, não sei a quem poderá apetecer montar um negócio. Não é muito entusiasmante andar a trabalhar para pagar impostos.
Mas mesmo que não houvesse impostos e que as condições fossem boas para formar negócios, nem todas as pessoas podem fazê-lo, como é evidente. A ideia de que todos podemos fazer uma Jerónimo Martins ou uma Sonae é poética. Aliás, se olharmos para o PSI20, vemos que a esmagadora maioria das empresas resulta de negócios familiares antigos ou grande fortunas feitas noutros tempos. Fazer um grande negócio não é, por isso, uma questão de empenho e trabalho. Pelo menos o capital, uma grande porção dele, é preciso.
Capital esse que, se não vier de família, tem de vir dos bancos. Passos Coelho deve saber que os bancos não estão a emprestar. Ou seja, formar um negócio é ainda mais complicado, isto para não falar na enorme incerteza que paira sobre o futuro.
É verdade que não é preciso fazer uma Jerónimo Martins, pode fazer-se uma coisa mais pequena. Claro que sim. Mas isso é ainda mais complicado. Lançar uma pequena empresa, sem dinheiro, na actual conjuntura, é deitar dinheiro ao rio, porque as grandes empresas, também em dificuldades, comem tudo. Sou até menino para dizer que, quem estiver a pensar formar um negócio agora, pense logo em fazer uma grande empresa, porque se se atira para uma pequena e média, mais vale investir em ouro, que é mais seguro.
Mas não vamos mais longe: Até o grande "empreendedor" Passos Coelho que, quando se candidatou a primeiro-ministro, tentou exibir um currículo privado feito nas "empresas", deve ter presente que essas empresas em que trabalhou pertencem todas aos seus padrinhos da política e que não foi nunca pelas suas capacidades de gestão que lhe pagaram. Foi para um dia vir a ser alguém na política, como acabou por ser, embora eu acredite que nunca os seus "patrocinadores" acreditaram que fosse tão longe.
Resumindo, Passos Coelho devia ter outro discurso sobre o desemprego, que muito mais que uma "grande oportunidade" é um enorme flagelo para as pessoas, para a economia e para o país, pela simples razão de que os portugueses, na sua maioria, não têm pais ricos, já não podem ir ao BES e nunca se meteram na política à procura de tachos.